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Noite na Taverna (Álvares de Azevedo)

A estrutura narrativa de Noite na Taverna pertence a uma modalidade de romance que Antonio Cândido chama de DIFUSO, em oposição ao romance CONCENTRADO. com coerência e nexo causal entre os acontecimentos.

Cândido explica o romance difuso como "aquele onde os acontecimentos vão saindo caprichosamente uns cos outros ao sabor das associações e dos pretextos, sem haver uma diretriz que os concatene e dê a impressão de que são necessários (Cf. CANDIDO - A Educação pela Noite e Outros Ensaios).

Apesar de as cinco histórias narradas em Noite na Taverna corresponderem a cinco episódios independentes, há fortes elementos que os associam, dando, assim, uma unidade à obra.

Bem, veja o seguinte exemplo para que você possa compreender o anterior dito e também perceber como a estória é narrada:

Temos muitos viajantes ( marinheiros, marujos etc...) em uma noite a beber em uma taverna (título da obra ), neste ínterim cada um conta a sua aventura.

Saliento aqui que os textos são pesados tanto pelo elevado teor sexual como a morbidez sempre presente nos casos. Ao ler as estórias você compreenderá porque o poeta recebeu a alcunha de maldito.

Observe o perfil dos viajantes na tabela abaixo e depois veja as suas aventuras:

Nome do personagem

Perfil da personalidade

SOLFIERI

Tibertino e necrófilo, possuiu uma mulher em estado de catalepsia ( doença em que a pessoa parece morta )

BERTRAM

Torna-se um perdido na Espanha, envolve-se com mulher que mata o marido e o filho para provar-lhe o amor

GENNARO

Estudante de pintura, casado _ apaixona-se pela filha de seu mestre.

CLAUDIUS HERMANN

Para conquistar uma mulher casada vale-se do ardil de dopá-la. Jogador inveterado

JOHANN

jovem cuja figura lembra uma donzela pelas formas suaves da expressão facial_ cometerá incesto e fratricídio.

SOLFIERI

Solfieri , o libertino, narra uma aventura que teria passado em Roma, cidade do fanatismo e a perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido. E um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença.

Certa noite, enquanto passeia. Solfieri vê uma imagem de mulher que canta e derrama lágrimas: "um choro de frenesi, num gemer de insânia". Ele a segue até o cemitério, onde ela parece soluçar... Acorda sozinho no cemitério, febril após uma noite de chuva, frio e sonhos da qual não consegue se esquecer. Observe o ambiente macabro formado pelo sonho, delírio e cemitério.

Um ano depois, sai de uma orgia com a condessa Bárbara e, embriagado, chega a um lugar bem escuro, a uma igreja. Lá ele encontra um caixão e ao abri-lo acha que a defunta é o anjo do cemitério. O que faz? Retira-a do caixão e a possui no templo.

Este episódio necrófilo, bastante erotizado (que nos faz lembrar a badalada posse da bela adormecida); de repente ele se choca como retorno da mulher á vida. Na realidade, ela sofria de catalepsia (estado mórbido, ligado à auto-hipnose e à histeria, caracterizado por enrijamento dos membros, insensibilidade, respiração e pulso lentos e palidez cutânea. seg. Novo Dicionário Aurélio).

A personagem Solfieri leva a mórbida criatura" à sua casa, onde ela morre "após duas noites e dois dias de delírio.

Ele, então, paga a um escultor uma estátua da moça, cava-lhe um túmulo e "estende o leito sobre ele"; e dorme durante um ano sobre o corpo da amada.

A estátua fica pronta e Solfieri procura convencer os amigos da veracidade da história, jurando pelo pai, que era conde e bandido, pela mãe, que fora a bela Messalina (prostituta) das ruas.

Abre a camisa, a fim de que vejam, em volta do seu pescoço, uma grinalda de flores mirradas, murcha e seca como o crânio dela!" A morbidez e sordidez do episódio põem á nossa mira o demonismo sexual latente em toda a obra.

BERTRAM

Bertram vira um perdido por causa de Angela. uma mulher que conhece na Espanha e com quem faz planos de se casar.

No entanto, a chamado do pai, parte para Dinamarca, onde fica dois anos. Seu pai morre e ele volta à Espanha, onde Ângela já está casada e com um filho.

Tornam-se amantes e o marido de Ângela descobre a traição. Ângela o degola e mata também o filho. Depois oferece os cornos ensanguentados dos dois como prova de amor a Bertram.

Fogem juntos, viajam muito e entregam-se aos vícios. Bertram caracteriza Angela da seguinte maneira:

"Ângela vestia-se de homem: era um formoso mancebo assim. No demais ela era corno todos os moços libertinos que nos meses de orgia batam com a taça na taça dela. Bebia como urna inglesa, fumava como uma sultana, montava a cavalo como um árabe, e atirava as armas corno um espanhol.

Um dia, ela partiu. Partiu. Mas sua lembrança ficou como o fantasma de um anjo mau perto do seu leito."

A maldade de .Angela contamina Bertram, que continua sua experiência perversa até que certa noite cai bêbado ás portas de um palácio, onde os cavalos machucam-lhe a cabeça, é socorrido por um velho nobre, viúvo, que tem uma filha de 18 anos, a quem Bertram desonra e vicia levado por "uma fatalidade infernal".

Enjoa-se da moça e a vende a um pirata, a quem ela envenena e afoga-se em seguida.

Bertram continua a sua ‘viagem".

Um dia, na Itália, tenta o suicídio, jogando - se de um rochedo, mas um marinheiro tira-o da água, puxando pelos cabelos. morrendo para salvá-lo.

Enquanto outros marinheiros, ao levarem, Bertram num barco em direção ao navio, choram a perda do companheiro, o maldito sorri da sua sina negra.

E convidado pelo capitão do navio para seguir viagem a bordo. Ele aceita participar da tripulação, porém com urna ressalva: o será somente nas horas em que estiverem combatendo. Bertram conhece a mulher do comandante ("criatura pálida, parecera a um poeta o anjo da esperança adormecendo esqueci do entre as ondas.., era uma santa"). Aos olhos de Berram, o comandante e mulher viviam um amor casto.

Por isso morre de amor pela pureza da jovem mulher ("um poeta a amaria de joelhos").

Durante uma batalha em que sofreram o ataque de uni navio pirata os dois se amam: "não sei como se passou o tempo todo que decorreu depois. Foi uma visão de gozos malditos - eram os amores de Satan e de Eloá, da morte e da vida, no leito do mar.

Após uma tempestade em que todos morrem e Bertram sobrevive, de qual se sai impune mais urna vez.

Restam alguns sobreviventes. Bertram, nesse momento, interrompe a história e tece alguns comentários sobre a miséria e loucura da existência. Prepara. assim, o leitor, para o desfecho monstruoso do narrativa: um velho entra na taverna e conta sua vida de poeta, libertino e vagabundo errante.

Traz consigo uma caveira envolvida num lenço vermelho. Afirma ter ela pertencido a um poeta e louco, jogando, assim, com a fusão de poesia e Loucura reforçada nas palavras de Bertram, que, no relato da antropofagia, ocorrida de acordo com as leis do mar, fala das duas últimas vítimas da fatalidade,

O comandante perde no jogo da sorte e é morto e devorado pelo casal. Logo a seguir, embora tenha prometido à amada que morreriam juntos, Bertram, após fazer amor com NUM GOZO CRUEL e vê-la enlouquecida, A SUFOCA, esfomeado como uma fera. Porém uma onda lhe rouba o cadáver e ele perde a consciência acordando a bordo de um navio inglês que lhe salvara.

Enfim, sai do pesadelo sem precisamente saber quanto tempo se passara.

 

GENNARO

Gennaro é aprendiz de um velho pintor, Godofredo, com quem mora. Este último é casado com Nauza - sua modelo de vinte anos a quem quer como urna filha – Godofredo também tem uma filha, Laura, da mesma idade da esposa.

Embora apaixonado platonicamente por Nauza e sentindo-se correspondido no amor, Gennaro é seduzido por Laura, que vai para a cama com o rapaz e depois de entregar-se a ele tornam-se amantes. Laura fica grávida e pede a Gennaro que se case com ela. Ele recusa e Laura adoece acusando-o pelo mal que lhe causara, enfraquecendo até entrar em coma e morrer.

Transcorre um ano. Godofredo, enlouquecido com a morte da filha, passa as noite em claro no quarto dela, enquanto Gennaro declara amor a Nauza que, apesar de hesitar, acaba aceitando seu amor. Amam-se no leito conjugal de Godofredo e Nauza.

Um dia o pintor os surpreende, leva Gennaro ao quarto de Lana e lhe mostra um quadro que pintara: a filha moribunda e Gennaro pálido como ela.

Corroído pelo remorso, Gennaro confessa tudo a Godofredo, que o ouve em silêncio e frio. Nauza também ouve a conversa escondida.

Certa noite o velho pintor pede a Gennaro que o acompanhe e leva-o a um lugar ermo onde há urna cabana à beira de um despenhadeiro. Após entrar e sair da cabana, onde conversa com uma senhora, Godofredo tortura Gennaro fazendo-o lembrar-se das suas infâmias e o força a atirar-se no precipício. Ele se atira para evitar ser assassinado.

Mas não morre. É salvo por um casal de camponeses. Recuperado, procura Godofredo, primeiramente com a intenção de pedir lhe perdão mas, ao invés disso, decide vingar-se. No entanto, encontra na casa onde praticara suas infâmias apenas dois cadáveres abandonados.

CLAUDIUS HERMANN

Claudius Hermann, além de libertino, é um jogador inveterado, Aposta em corridas. Um dia, no momento em que as corridas iam começar, vê uma mulher passando a cavalo e de imediato se apaixona por ela.

Durante algum tempo revê a amada no teatro, em bailes, etc. Seu nome, Duquesa Eleonora. Após seis meses de desejos ardentes. Claudius profana o lar da amada, dando-lhe uma mistura combinada de sonífero e afrodisíaco.

A cena se repete durante três meses. Até que uma noite, aproveitando-se do fato de o Duque também ter experimentado a bebida, rouba Eleonora e a leva para uma estalagem, onde espera que ela acorde.

Ao acordar, a duquesa, entre pavor e desespero, ouve a declaração de amor do libertino, que houvera nela visto a salvação de sua existência. Ao tentar de todas as maneiras convencê-lo a libertá-la, Eleonora só provoca a reafirmação de tudo o que já ouvira do jogador, que lhe dá duas horas para pensar, sabendo que já não tinha nenhuma reputação para defender.

A Duquesa Eleonora encontra, ao voltar ao quarto os versos que lhe escrevera o apaixonado e depois de lê-los muda de idéia dando-lhe urna resposta positiva.

A essa altura, o narrador, embriagado, se cala. Quem termina a narrativa é Arnold. O horrendo desfecho é este: certo dia Claudius Hermann encontra Eleonora e seu marido, o Duque de Maffio, mortos e abraçados um ao outro.

JOHANN / ÚLTIMO BEIJO DE AMOR

Johann e Artur (figura loira e mimosa corno a de uma donzela) jogam bilhar em Paris. A partida estava praticamente perdida para Artur que na hora que vai tacar a bola esbarra na mesa de bilhar estremecendo-a. Johann dá-me uma bofetada, pois se sente insultado. Em resposta, Artur rasga uma luva e atira-lhe no rosto. Decidem, então, duelar-se. Vão para o hotel, onde conversam.

Artur, após derramar uma lágrima sobre o anel que trazia no dedo, pede a Johann que, caso morra, entregue uma carta que tem no bolso a alguém. Propõe um brinde a misteriosa moça por quem derramara uma lágrima e também à vida ou morte de um dos dois. Logo após, mostra-lhe duas pistolas, uma carregada e a outra não, para que a sorte decida o destino de ambos.

A meia-noite, Artur tem um pressentimento e reza por sua mãe.

No duelo, Artur morre. Johann, cumprindo o que prometem a Artur, vai, no escuro, ao encontro da mulher.

Depois de possuí-la, Johann é seguido por um vulto que carrega consigo uma faca. Lutam e Johann vence. Na claridade não crê no que seus olhos vêem. Acabara de matar o próprio irmão, que o agredira para defender a honra da irmã.

São cenas fortes de incesto e fratricídio.

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